DEUS NO TRÂNSITO

Saiu de casa atrasado. Tudo parado. Apelou para Deus.
_ Pô, Deus, bem no dia em que eu tô atrasado esse baita trânsito? Sacanagem.
_ Desculpe, eu não tava olhando.

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Achou estranho receber uma resposta, mas fingiu indiferença.
_ Ué, o Senhor não é aquele que era onisciente, onipresente e tal?
_ É, mas quando eu disse isso eram só dois, ficava mais fácil ver tudo. Além do mais, eu só falei para ver se eles se comportavam.
_ Não adiantou.
_ É, não mesmo…
_ Ô, Deuzinho, dá um jeito, vai. Meu chefe vai me matar se eu me atrasar de novo.
_ Não posso fazer nada, não é bom interferir.
_ Como não? Você pode tudo! Sei lá, faz uma ventania levar todos estes carros da minha frente!
_ Não dá, essas coisas não são assim. E depois eu acabaria levando o seu carro junto. Aos Meus olhos, vocês são todos iguais.
_ Que bonito…
_ Mais ou menos, é que olhando daqui do alto, parece um monte de pontinhos. Aliás, quem é que estava falando Comigo mesmo?
_ Aqui, no carro preto.
_ Ah, desculpe. Bom, resumindo: eu não posso ajudar.
_ Pô, Deus, quebra essa, vai. Afinal, eu sou Seu filho.
_ Nepotismo agora?
_ E porque não? O Senhor não é brasileiro?
Bufou, impaciente.
_ Tá bom, tá bom. Vira na primeira à direita aí.
_ Oba!
_ Isso, agora à esquerda.
_ Tá.
_ Direita ali e próxima à esquerda.
_ Que caminho tortuoso!
_ Os caminhos da fé são assim mesmo, meu filho.
_ Nossa, deu certo! Eu trabalho naquele prédio. O Senhor é melhor que taxista!
_ O que é isso… Eu não sei falar sobre tantos assuntos.
_ Então tá. A gente se vê.
_ Em breve.
_ Credo.
_ Brincadeira. Boa sorte lá, com o seu chefe.
_ Amém.
_ Amém? Como assim “amém”?
_ Ué, não é assim que se termina uma conversa com o Senhor?
_ Eu sei, eu sei, vocês sempre falam esse negócio de amém, mas Eu nunca entendi.
_ Acho que quer dizer “assim seja”, em latim.
_ Ah, então é isso? Vivendo e aprendendo. Eu sempre fui péssimo em latim.

ESQUECERAM UM CARA NA LUA

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Esqueceram um cara na lua. Na euforia da conquista espacial, a última equipe que passou por lá deixou um astronauta para trás. Eram tantas missões na época, a corrida espacial bombando, que ele nem esquentou a cabeça. Pensou: “daqui a pouco alguém vem me buscar”. Foi quando o presidente Nixon decretou o fim do projeto e a coisa complicou. Lá em cima, o homem traçava um plano de sobrevivência. Primeiro, encontrou um confortável trecho de terra – ou de Lua – entre o escaldante lado claro e o congelante lado escuro, e montou uma espécie de iglu, utilizando pequenos asteróides e areia. Água e comida não eram problema, tinha os bolsos cheios de comprimidos, daqueles com gosto de macarronada e suco de uva. O tempo foi passando, sua reserva de oxigênio acabando, e ele começou a ficar preocupado. Talvez não viesse ninguém. Revirando seu material de astronauta, ele encontrou uma garrafa vazia. Perfeito para um náufrago como ele, pensou. Escreveria um bilhete e mandaria para a Terra. Revirou os bolsos e toda celulose que achou foi a lista de compras que a mulher havia lhe deixado, coisas para comprar “na volta da Lua”. O verso do papelzinho teria que servir. Procurou a caneta, aquela famosa, que funciona até de cabeça para baixo. Por um momento, temeu que a tivesse esquecido com o astronauta com quem viera disputando jogo-da-velha no caminho, mas ela estava ali. Então redigiu o pedido de socorro, assinou, dobrou o papel, colocou-o dentro da garrafa e a arremessou com toda a força na direção do planeta azul. Era provável que se desintegrasse na reentrada da atmosfera ou que ficasse perdida no oceano para sempre, mas a esperança era o que lhe restava. E alguns comprimidos. Engoliu um de estrogonofe e tentou se acalmar. Suas chances eram mínimas, sabia, e ele nem tinha batata palha. Acontece que, algum tempo depois, eis que surge uma nave no horizonte. Seu plano insólito dera resultado, vieram buscá-lo! A espaçonave foi crescendo no céu e chegou bem perto dele. O homem conseguiu, inclusive, avistar um colega, pela janelinha. Um compartimento se abriu e despejou algo no solo. Então a nave, sem mais nem menos, fez a volta foi embora. O astronauta saiu correndo na direção do objeto largado e, meia hora depois (tente correr na Lua), encontrou uma sacola de supermercado. Dentro dela, os itens da lista de compras: ovo, cereal, leite, pão. Haviam encontrado a mensagem, de fato, mas leram o outro lado do papel. E ainda erraram a marca da margarina.

 

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INGREDIENTE SECRETO

Num dia qualquer, nenhuma data especial, ela preparou o jantar, montou a mesa mais bonita do que o de costume e chamou o marido.
_ Senta aí. Fiz uma receita nova.
Ele se animou.
_ Nova?
_ É um salmão, mas eu pus um ingrediente diferente.
_ Não conta. Deixa eu adivinhar.

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Estava excitado. A culinária era um dos últimos assuntos capazes de causar excitação naquela casa. Sentou-se e deu a primeira garfada. Mastigou lentamente, tentando extrair o máximo de eficiência de cada papila gustativa. Tinha uma expressão de sommelier.
_ Primeiramente (ele usava “primeiramente” quando o assunto era comida), está delicioso. Um primor.
_ Obrigada.
_ Tem mesmo um sabor especial aqui, alguma coisa que eu ainda não consegui identificar. Não é hortelã, é?
_ Não, não é hortelã.
_ Hum… Difícil, difícil…
Deu um gole no vinho. Provou mais um pedaço.
_ Muito bom… Alecrim, não é.
_ Não.
_ Já sei! – hesitou – Coentro!
_ Quase.
_ Não é coentro? Achei que tinha adivinhado.
_ Passou perto, passou perto.
Já havia abandonado completamente o risoto, que esfriava no prato. Seu interesse se resumia ao tal ingrediente, que passara a ser uma questão de honra desvendar.
_ Não é alcaparra, com certeza. Salsinha, também não. Nem cebolinha.
Ela parecia impaciente.
_ Come mais, que você descobre.
Encheu a boca com um pedaço enorme. Mastigou, mastigou, pensou, meditou, até que seus olhos brilharam. Sentiu a garganta se fechar. Falou com dificuldade, porém entusiasmado, enquanto começava a passar mal.
_ Já sei! Descobri!
_ Fala.
_ É cianureto! Cianureto!
_ Acertou!
_ Eureka! Eureka! – tossia, estava vermelho, a voz cada vez mais rouca.
_ Parabéns, você sempre foi bom nisso. Que paladar!
_ Cianureto! Claro, tão óbvio.
_ Fiquei com medo de colocar demais e estragar a receita.
_ Não, tá perfeito. Harmonioso. Combinando com o limão e a pimenta dedo-de-moça – tossiu mais.
_ Obrigada, obrigada.
Nesse momento ele já estava no chão, se contorcendo. Suas últimas palavras, que se esforçou ao máximo para conseguir pronunciar, foram:
_ Mas o risoto… Nem provei… O arroz passou do ponto!
Ela socava o defunto com força.
_ Canalha! Canalha!

APRESSADO

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– Francisco! Levanta! Vai se atrasar para o colégio, menina!
– Calma, mãe, já tô indo!
– Tá indo nada, levanta daí, Beatriz! Tó, veste logo essa cueca!
– Luíza! Vambora!
– Olha lá, moleque, teu pai já tá na porta gritando!
– Deixa eu lavar o rosto…
– Lava logo que você já tá atrasada, Eduardo. Cuidado pra não pisar nas suas bonecas.
– Joaquim! Tô saindo!
– Seu pai já ligou o carro. Vai, engole esse pão com manteiga, Gabi. Tá todo amarrotado…
– Até que enfim, hein, eu já tava indo embora.
– Ih, pai, vou ter que trocar de roupa…
– Mas porque, Arthur? Não viu que horas são?
– Desculpa, sujei a calça. Eu tô naqueles dias…
(Nona semana de gravidez. Nada definido. Nem o sexo, nem o nome).

OTORRINOLARINGOLOGISTA

_ Pai, quando eu crescer, quero ser otorrinolaringologista.
Ele tinha cinco anos. O pai foi pego de surpresa.
_ O quê?
_ Otorrinolaringologista. Médico de ouvido, nariz e garganta, pai.
_ Ah…

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Ficou preocupadíssimo. Não entendia o que aquilo queria dizer, mas tinha certeza de que não poderia ser bom. Uma criança daquela idade que queria ser tal coisa não estava certo. Colocou o filho na terapia. Mas, depois de algumas sessões, a psicóloga chamou o homem e foi incisiva.
_ O menino está ótimo. Melhor, impossível.
_ “Melhor impossível”? Ele tem a doença daquele cara do filme?
_ Não, é modo de dizer. O seu filho não tem nenhum problema.
_ Tem certeza, doutora?
_ Claro. É uma criança perfeitamente saudável. E me receitou um remedinho ótimo pra garganta.
Resignou-se. O jeito era esperar para ver no que dava. Se o menino cresceria como os outros ou se, esquisito daquele jeito, um dia viraria um psicopata assassino – estrangulador, provavelmente, dado o gosto que, desde cedo, demonstrava por gargantas. Por via das dúvidas, começou a dormir com a porta do quarto trancada.
Mas os anos se passaram, o menino virou adulto e a história provou que toda a preocupação era, afinal, infundada. Aquela mania de otorrinolaringologista foi completamente esquecida, era coisa de criança. O rapaz arranjou namorada, se formou, e acabou fazendo carreira num ramo totalmente diferente daquele tão incomum com que sonhara na infância. Acontece com muita gente, criança tem imaginação fértil. Thiaguinho, hoje em dia, trabalha na NASA, junto com seus outros colegas astronautas. Está mais feliz agora do que na época em que trabalhou no corpo de bombeiros, ou quando foi piloto de corridas, é verdade. Mas, secretamente, ainda olha fotos de endoscopia nasobucal na Internet, com lágrimas nos olhos.

A GRANDE MÃO

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Quatro meses e vinte e dois dias. Hoje, percebi algo de estranho na imensa mão que fala comigo diariamente, por cima do berço. Sei lá, tive a impressão de que a voz dela não parecia sair exatamente dela, mas devo estar enganada. Ando abusando da funchicórea. Quatro meses e vinte e oito dias. Aconteceu de novo. Desta vez foi pior. A boca da Mão parou de se mexer, mas a voz continuou saindo por alguns segundos. Não sei, sinto que algo não vai bem com ela. Cinco meses e seis dias. Hoje, descobri algo que mudou a minha vida: a voz que até então eu jurava ser da Mão, é, na verdade, o papai, falando de outro jeito, juntinho com os movimentos da Grande Mão. Não sei o que ele pretende com esta farsa, mas foi desmascarado. Bem que dizem que cinco meses é uma fase de grande amadurecimento. Só não entendi por que a Grande Mão compactua com isso, mas ainda vou descobrir.

CHEVETTE 86

O sinal fechou e ele parou a dois carros da faixa de pedestres. Como sempre acontece em São Paulo, vieram aquelas garotas com roupas engraçadas, entregando folhetos de imobiliária, normalmente com a foto de um casal feliz ou de uma personalidade como a Hebe. Não consigo entender por que alguém compraria um apartamento pela remota possibilidade de cruzar com a Hebe no elevador às sete da manhã, cheia de olheiras – se eu tivesse a intenção de comprar um, provavelmente isso me fizesse desistir.

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Eram três meninas naquele dia. Elas passaram pelo primeiro carro e deixaram três folhetos (cada uma deixou três). Fizeram o mesmo com o segundo motorista. O homem já tinha aberto um vão na janela e preparado um espacinho no saco de lixo pendurado no câmbio, desses que se ganha na lavagem, para receber a propaganda, mas as meninas olharam o carro e passaram direto para o de trás. Ele estava num Chevette 86 (modelo 87, diga-se). Não pretendia comprar apartamento nenhum, mas sentiu-se mal em não ter recebido os papeizinhos. Estava claro, as meninas haviam julgado: “esse não tem dinheiro para comprar um apartamento”. Não tinha o dinheiro, e gostava da Hebe, mas não engoliu a afronta. Se elas estivessem tão interessadas assim no negócio de vender apartamentos, não desperdiçariam folhetos deixando tantos em cada carro. O sinal abriu. Melhor assim, pelo menos não junta lixo no carro: “é pobre, mas é limpinho”. Andou mais uns quatro quarteirões e mais um sinal vermelho. E lá veio uma nova leva de meninas panfleteiras, enquanto algumas outras ficaram na calçada balançando bandeiras enormes com os nomes das construtoras, como se fosse haver um jogo de futebol entre as equipes dos escritórios concorrentes. Resolveu dar mais uma chance a elas, abriu novamente o vão na janela e ficou esperando. A primeira estava quase chegando, mas olhou o Chevettão, difarçou e passou para o carro de trás. O homem pensou em buzinar, em protesto. A segunda garota nem disfarçou, agiu como se ele não estivesse ali e foi direto para o automóvel de trás. Uma terceira olhou o carro de longe, mas ele já havia perdido as esperanças. Fechou o vidro e ficou lá dentro, de cara fechada, filosofando sobre como a humanidade era superficial, mesquinha e fútil. Pegou pesado mesmo. Mas eis que, quando menos esperava, ouviu uma batidinha no vidro. Lá estava a garota, papel em riste, oferecendo-o ao dono de um Chevette 86. Pela rapidez com que chegara, tinha inclusive dado preferência ao homem e seu carro de museu, pulando outros automóveis mais pomposos que estavam no seu caminho. Ele, que já estava irremediavelmente decepcionado com o ser humano, se comoveu com aquela atitude. Nem todo mundo julga os semelhantes superficialmente, foi o que concluiu, quase lacrimejando. Pegou, orgulhoso, os três ou quatro folhetos que a garota entregou e ia jogar no lixo imediatamente, como sempre fazia, mas sentiu-se na obrigação de dar pelo menos uma olhadinha daquela vez. Então pôde ler: “Troque já o seu carro! Superfeirão de automóveis neste sábado!”